Você já esteve em uma sala cheia de pessoas e, ainda assim, sentiu como se estivesse sozinho? Pode ser durante um encontro com amigos, em uma reunião de família, no trabalho ou até mesmo ao lado de alguém que você ama. Há conversas, mensagens, compromissos, pessoas por perto, mas, por dentro, existe uma sensação difícil de explicar, como se faltasse alguma coisa.
A solidão nem sempre acontece quando estamos sem ninguém. Às vezes, ela aparece justamente quando percebemos que, apesar de tantas pessoas ao nosso redor, estamos sentindo falta de um encontro em que possamos realmente nos sentir vistos, compreendidos e pertencentes. E talvez seja por isso que nem sempre conseguimos reconhecer ou nomear aquilo que estamos sentindo.
Estar sozinho é diferente de sentir-se sozinho
Existe uma diferença importante entre estar sozinho e experimentar a solidão. Estar sozinho pode ser uma escolha. Podemos desejar alguns momentos de silêncio, gostar da nossa própria companhia, precisar de um tempo para descansar, organizar os pensamentos, ler um livro, assistir a um filme ou simplesmente não fazer nada. Afinal, existem muitas coisas que gostamos de fazer na nossa própria companhia, e não há nada de errado nisso.
Esses momentos não significam, necessariamente, sofrimento. Há pessoas que gostam de passar um tempo consigo mesmas e encontram nesses momentos uma oportunidade de descanso e reconexão. É possível estar sozinho e estar bem. Da mesma forma, é possível estar acompanhado e sentir-se profundamente sozinho.
É aí que podemos pensar também na solitude: a experiência de estar consigo mesmo sem que isso necessariamente represente falta ou sofrimento. A solitude pode fazer parte de uma relação saudável com a própria companhia.
A solidão, porém, pode assumir outro significado. Ela pode aparecer quando sentimos falta de conexão, de intimidade, de pertencimento ou de alguém com quem possamos compartilhar aquilo que realmente somos.
Por isso, talvez a questão não seja simplesmente quantas pessoas existem ao nosso redor, mas como nos sentimos nos encontros que temos.
Quando a nossa própria companhia faz bem?
Gostar de estar sozinho não é, por si só, um problema. Às vezes, ficar consigo mesmo é exatamente o que precisamos. O silêncio pode ser confortável, a ausência de compromissos pode trazer alívio, e podemos descobrir que não precisamos estar constantemente acompanhados para nos sentirmos bem.
Mas existe uma diferença entre escolher a própria companhia e se afastar de todos porque estar com outras pessoas se tornou difícil, doloroso ou ameaçador. E essa diferença nem sempre é fácil de perceber.
Podemos começar a recusar convites, deixar mensagens sem resposta, evitar novos encontros ou nos convencer de que “não precisamos de ninguém”. Em alguns momentos, isso pode até parecer uma escolha.
Mas será que é?
Quando estar sozinho começa a gerar sofrimento?
Talvez uma pergunta importante não seja apenas: “Eu gosto de ficar sozinho?”, mas também: “Como eu me sinto quando estou sozinho?”
A minha própria companhia me traz descanso ou sofrimento?
Eu escolho estar sozinho ou tenho evitado as pessoas?
Sinto-me bem com os meus momentos de solitude ou tenho me isolado porque estar com outras pessoas se tornou difícil para mim?
Tenho pessoas ao meu redor com quem consigo ser verdadeiramente eu?
Tenho vontade de me aproximar, mas não sei como?
Essas perguntas não têm respostas certas ou erradas. Elas podem apenas nos ajudar a olhar com um pouco mais de atenção para aquilo que estamos vivendo.
Porque nem todo afastamento é solitude e nem todo desejo de estar sozinho significa que estamos bem.
Nem toda solidão parece solidão
Existe uma imagem muito comum da pessoa solitária: alguém que está sempre sozinho, que não tem amigos, que não participa de encontros ou que passa muito tempo isolado.
Mas a solidão pode ter outras formas. Ela pode existir dentro de um relacionamento, aparecer em uma família na qual ninguém conversa sobre o que realmente sente, acompanhar alguém que tem muitos amigos, mas não consegue compartilhar suas vulnerabilidades, estar presente em uma rotina cheia de trabalho, compromissos e responsabilidades ou aparecer depois de uma mudança, de um término, de uma perda ou de uma fase em que percebemos que algumas relações já não fazem mais sentido para nós.
Às vezes, estamos cercados de pessoas, mas sentimos que não podemos baixar a guarda diante de nenhuma delas. Talvez seja justamente aí que a solidão se torne tão difícil de reconhecer: olhando de fora, parece que temos companhia, mas, por dentro, existe a sensação de não estar verdadeiramente acompanhado.
Talvez o que esteja faltando seja um encontro
Nem sempre precisamos de mais pessoas. Às vezes, precisamos de relações nas quais possamos existir com mais autenticidade, de alguém diante de quem não seja necessário fingir que está tudo bem, de uma conversa em que possamos dizer aquilo que realmente pensamos, de um espaço em que nossas experiências sejam escutadas sem que precisemos imediatamente encontrar uma solução e de relações nas quais exista espaço para reciprocidade, vulnerabilidade e presença.
Porque estar acompanhado não é necessariamente estar conectado.
E talvez um dos aspectos mais dolorosos da solidão seja justamente sentir que não encontramos um lugar onde possamos simplesmente ser quem somos.
E você, como tem vivido a sua própria companhia?
Talvez você esteja passando por uma fase em que ficar sozinho tem sido necessário e até mesmo prazeroso. Talvez esteja descobrindo que precisa de mais tempo consigo. Ou talvez tenha percebido que o isolamento, que inicialmente parecia uma escolha, começou a pesar.
Talvez você tenha pessoas ao seu redor, mas ainda sinta falta de alguém com quem possa realmente compartilhar a sua vida.
Não existe uma resposta simples para essas experiências.
Mas observar o que acontece dentro de nós pode ser um primeiro passo.
Eu estou escolhendo estar comigo ou estou me afastando do mundo?
Quando fico sozinho, encontro descanso ou encontro sofrimento?
Tenho relações nas quais posso ser verdadeiramente eu?
Sinto falta de pessoas ou sinto falta de me sentir conectado a alguém?
Às vezes, dar nome ao que sentimos já muda a maneira como começamos a olhar para essa experiência.
Existe um nome para aquilo que você está sentindo. E você não é a única pessoa a passar por isso.
Quando essa experiência começa a gerar sofrimento, talvez não seja necessário atravessá-la sozinho. A psicoterapia pode ser um espaço de escuta e reflexão para compreender melhor o que está acontecendo e encontrar novas possibilidades de relação consigo mesmo e com os outros.
Este texto foi inspirado também pelas reflexões presentes no livro Cuidar da Solidão Até Virar Encontro, de Alexandre Coimbra Amaral.